




Segunda-feira do mês de Maio. O costume dos novos professores já se torna comum, o tom alto da professora de história já não me causa tanto medo quanto nos primeiros dias. A escada para o andar de cima da escola não me parece um Everest e vez ou outra, pego todo o meu equipamento e me proponho a escalar. Tudo parece estar bem que já custo a lembrar da magrela de aparelho, tão pouco das outras pessoas da escola. Nesta hora, porém, notei que meu amigo não está como antes, normal. Antes mesmo de responder minha saudação, me olhou com certo medo e disse que vai se mudar. Sim, mudança. Ele ouviu seus pais dizerem em alto e bom tom que “VÂO MUDAR”. Se já é difícil acrescentar uma nova matéria à vida de um aluno, imagina como é ter uma mudança. Um novo lugar, novas pessoas, nova casa, por que não? Novos professores, e o pior, novo melhor amigo! Não, não posso permitir que ele se vá assim, mudanças às vezes trazem coisas boas e muitas vezes trazem coisas ruins, aliás, acho que só para os adultos elas trazem coisas boas, para nós, pequenos escravos de suas vontades, os malefícios são tantos que não são descritíveis.
Contamos então para as principais pessoas que andam conosco, acredito que no fundo todos tivemos os mesmos pensamentos que tive e ninguém foi a favor desta mudança. No intervalo, lembrei de quantos anos a família dele morava naquela mesma rua no centro da cidade, é muito tempo. Esta mudança veio de surpresa, de forma que ninguém esperava e o pior, é amanha! Decidimos que nos encontraremos a tarde na casa do César, perto da casa do Pedro que está em mudança.
Chega a hora. Chego ao local. Nestas horas, só o irmão mais velho de César se encontra na casa, eis o motivo da ‘reunião’. Conversamos sobre os possíveis motivos, as causas e nada resolvido por completo. Acabamos por passar a tarde inteira comendo pipoca, bolachas recheadas, salgadinho e suco, depois brincamos um pouco e quando deu a hora de irmos, resolvemos que Pedro era legal de mais pra ir embora e que passará esta noite aqui mesmo na casa do César, depois na minha casa e assim por diante.
Voltei para minha casa e, após alguns minutos, resolvi ligar para saber como tudo estava. Há um clima calmo, mas estranho. Meus pais deixaram novamente eu ir à casa de César. Já está tarde e por volta das 20h o pai de Pedro bate à porta, quem atende é o irmão mais velho de César que não sabe que Pedro ainda está aqui, e claro, todos negou esta possibilidade ao pai do Pedro. Consegui notar um profundo sentimento paterno e uma tristeza, do tipo que está prestes a se matar por um filho. Nos minutos que sucederam, tentei convencer os dois de que a melhor coisa era ele ir para a casa dele e ver mesmo se esta mudança era pra muito longe ou não, e ainda bem, assim aconteceu. Concordamos em ir visitá-lo sempre que possível e passar os finais de semana lá, e que no dia seguinte, nem que fosse só eu, mas iria à casa dele falar um ‘Xau’.
Não sei se é meio-dia ou após o almoço que eles vão sair, mas não posso sair de casa sem antes almoçar e conversar com meus pais. Chego à casa de Pedro por volta das 13h30min, e o pior é que ele nem foi para a escola. Tudo o que estou vendo é dois carros em movimentos na longa estrada e um deles parece ser o dos pais de Pedro. Já deve ser tarde demais para falar ‘Xau’. Eu me atrasei. Não há mais o que fazer senão sentar-me nos degraus da casa dele e como em um curta-metragem, relembrar os bons momentos...
Cinco sete e onze minutos de passam. Já estou cansado de ficar ali sentado. Levanto-me e neste momento eis que abre a porta Pedro. Sim, é ele. Ele não se mudou, apenas mudou ele de quarto, aliás, mudaram boa parte da casa por dentro. A felicidade que senti em vê-lo só é comparada a um bebê quando toma seu leite. Resolvemos mais tarde aproveitar todos os momentos juntos, já que nenhum de nós sabe quando ou se vamos algum dia se mudar ou nos afastar.
Então eu - agora com uns onze ou doze anos – Eu saio do carro e uma mulher alta, magra, loira que me causa certo medo está saindo do carro ao lado. É como ouvia dizer nos contos de fadas, uma legítima rainha (o mundo sempre nos surpreendeu colocando à prova nossas imaginações com a realidade). Não é tão difícil encontrar pessoas assim nas ruas de uma cidade, principalmente se ela for uma das maiores do país, mas desta vez, a rainha trouxe a princesa. Sim, uma loirinha, de olhos claros com o mesmo perfil da mãe (uma futura rainha).
Será que meus sonhos se tornaram realidade? Ou será que ainda estou sonhando? Nunca tinha visto uma menina tão ‘diferente’ assim na minha vida. Sei que deves estar pensando que tens um nome para este momento, mas se for o nome ‘amor’, engana-se. Não é.
Para os adultos, é uma rotina cumprimentar pessoas alheias, chega a ser simples e fácil, pois muitos nem olham na cara. Não posso deixar de falar um oi para estas duas pessoas, mas só eu sei o quanto é difícil falar um oi para alguém que lhe causa uma coisa estranha aqui dentro, ainda mais para alguém que ainda fica vermelho quando uma menina ou um adulto lhe dirige a palavra. Saio do carro e me dirijo à calçada, enquanto meu pai estaciona o carro. A rainha e sua filha se dirigem à minha pessoa, já que, de todos da escola eu sou o único que uso uniforme e estou na mesma calçada.
De perto, ambas são ainda mais bonitas, parece até uma cena dos grandes clássicos do cinema. Ouço uma pergunta dirigida a mim. Não sei pensar em duas coisas ao mesmo tempo quando uma delas me atrai todo o pensar. Demorei a responder que estudava ali, na escola que ela veio visitar. Entre alguns poucos diálogos, concordei mostrar a direção da escola a ela, e claro, aproveitar para observar a filha dela. Sei que desta vez não penetro em território inimigo, até porque ainda estou na escola.
Ali esta ela, a pequena e elegante princesa, passos firmes e olhar concentrado, respiração constante e postura de adulto. Resolvo, por alguns rápidos minutos, olhar para ela. Um ‘TOC’ veio na minha cabeça, já devo saber por que ela me fascina tanto. Ela percebe que está sendo olhada, claro que neste momento não só por minha pessoa, mas também por outros olhares de meninos curiosos. Retiro o foco de meu olhar assim que a percebo me olhando também.
Quando chegamos na direção da escola me senti melhor, com mais disposição para conversar, pra iniciar uma conversa amigável. Aproveito o momento que a rainha está conversando algum assunto que não me interessa, para descobrir mais coisas sobre a princesa. Desta vez foi eu quem parecia o predador. Tudo normal até quando lhe perguntei se iria estudar nesta escola. Não, claro que não, ela me respondeu. Para ela, seria uma das ultimas coisas que queria. Ela não estava disposta a perder a bolsa de estudos que ganhou em um colégio renomado no centro da cidade. Sua mãe estava ali apenas para rever um familiar que trabalha na escola.
Dou-lhe razão pelos esforços e determinação, mesmo querendo dizer que ficasse que eu seria seu melhor e mais fiel súdito... O sinal toca, eu me despeço. Ela me da um beijo no rosto. Não me deixo iludir por sentimentos passageiros, dou um leve sorriso e me dirijo à sala. Então presumo que ela se foi para dar o The End do meu conto de fadas.
Este ano a escola está um pouco estranha. Sabe quando acordamos normais e depois quando damos o primeiro passo em direção a escola uma coisa que nunca sentimos invade nosso ser e nos traz pensamentos e sensações estranhas e novas, dos quais preferimos que estivessem guardadas no lugar de onde surgiram. Alguns dos meus dias foram assim e sei que outros ainda serão, mas o pior mesmo é sentir isso pela primeira vez.
Em um destes dias que acordei normal e ao me dirigir para a escola veio este ‘sentimento’ aconteceu o ‘dia da mentira’. Não, não era primeiro de Abril, nem o dia interno da mentira na escola, era somente que as pessoas tiraram para mentir. Sabe estas mentiras que começa na infância, daquelas que dizemos às mães que sentimos uma coisa estranha (pior do que a que citei acima), bem aqui, e não da nem pra levantar da cama, sob pena de morrer no caminho e o remorso de nossos pais serão tanto que se arrependeriam de nos ter feito levantar da cama pro resto da vida? Pois é, em plena quinta-série e eu ouvindo coisas assim de um amigo que até estes dias aparentava ser bem normal e ‘adulto’ (apesar de não gostar de pessoas adultas...), mas também não era assim o tipo de amigo inseparável.
Outra mentira que encontrei foi a de uma menina da sala que não parava de metralhar um garoto com perguntas do tipo “Tinha um menino com uma mochila igual a sua rondando minha casa”. “Era você La na rua de casa o dia todo?”, “Me ligaram hoje antes da aula começar, eu não sei quem era, era você?” e muitas outras... Alguns dias atrás ouvi pelas fofocas do grupinho do fundão que eles estavam ‘ficando’ mas sei lá, ele jurou que não era ele... Será mesmo?
É nestas horas que me pergunto se nós homens (eu ainda jovem, muito jovem e bastante garoto, Homem ainda não) podemos mesmo dizer a verdade, será que seria bom? Acho que em certos momentos a mentira deve ser contada. Imagina os grandões encostados na escada do pátio beijando suas namoradas frescurentas e bem arrumadas “Tenho vergonha e não quero que você fique colocando suas mãos por todo o meu corpo, promete que não vai me tocar?”, e ele responde com certeza “Não, prometo. Nosso amor é tudo” e quando não, uma mão escorrega para a cintura e ambos param de se beijar. Analisando o jeito como os dois interagiam, ela não queria ser tocada, mas ao mesmo tempo ficaria decepcionada se ele não a tocasse, ainda mais ela que mostrava em seu rosto o gostinho que teve em parar o que estava em ação para afastar a mão do sujeito. Não sei com certeza se isso era namorar, prefiro não saber para não fixar no cérebro e ficar lembrando quando eu namorar (se eu namorar...)
Acredito que namoro até tem mentiras, mas antes de tudo, é uma conquista lenta em um território desconhecido onde cada passo pode te levar a morte ou a vitória, um verdadeiro campo de batalha, uma mentirinha aqui e uma outra ali, por partes dos dois, é sempre válida, as vezes para fazer a coisa certa, e as vezes por pensar que é a coisa certa. Ainda bem que nesta minha idade, o primeiro beijo ainda é o tema principal de todo aluno na sala de aula.
