

Agora q sabes como estou aqui, direi-vos mais uma história posterior.
Um dia – Eu tinha, digamos, uns dês, onze anos – Eu chego à escola, e aquela menina magrinha que usa aparelho e que eu sempre olhei com desconfiança, me entrega um convite. É, como eu espera, para uma festa de aniversário (as chatas sempre fazem aniversário). Só desta vez há uma novidade: a festa inclui uma reunião dançante (o famoso baile)
E agora?Eu nunca fui a um baile antes. Na verdade eu nunca dancei. Sim, eu sei q faz parte dos ritos tribais da classe média destinada a apaixonar adolescentes e pré-adolescentes de ambos os sexos; mas isto não é consolo, pq os rituais de iniciação podem ser extremamente dolorosos.Especialmente p/ quem é tímido e fica vermelho cada vez que tem de falar com estranho, ou, pior ainda, com uma estranha.
Mas eu não posso deixar de ir. De jeito nenhum. Todo o mundo vai, todos os meus amigos vão; se não pela reunião dançante, então pelas tortas e pelos doces, a grande atração da vida numa fase da existência em que as calorias realmente não engordam. O que é que eu posso fazer? Os adultos sempre podem mentir - e adulto sabe como mentir, passa a vida inteira fazendo isso – que tem compromisso. Mas não tenho compromisso algum; desde q Deus criou o mundo, esse sábado estava fatidicamente destinado a ser o dia de meu martírio, e a mais nada. Eu irei, pois. Minha última esperança seria uma catástrofe qualquer, uma guerra nuclear, um maremoto, atentado terrorista – mas conflitos armados parecem uma possibilidade longínqua, e maremoto em Santana de Parnaíba??? Doença tbm seria uma boa possibilidade, infelizmente, porém, sou sadio, bem sadio.
Chega o dia do aniversário e junto com meus colegas lá vou eu para a casa da aniversariante, num estado de espírito comparável ao de um condenado q é levado p/ a cadeira elétrica.Sou recebido pela mãe da aniversariante com uma frase que soa como uma sentença – “Vai lá, rapaz, as meninas estão esperando para dançar” – e, a retirada sendo definitivamente impossível, penetro em território inimigo.
E ali estão elas, aquelas magrinhas e perigosíssimas criaturas – as meninas. Estão rindo, cochichando, estão lançando olhares provocativos, enfim, estão fazendo tudo o q podem para me atrair à pista de dança – terreno minado, areia movediça. Eu bravamente resisto, ainda q o apelo do som a todo volume (para tormento dos visinhos) seja irresistível. Mas, como Ulises, eu me faço de surdo ao canto das sereias. Numa desesperada manobra, recuo até a parede, e ali me encosto (se depender de mim, esta parede não cairá jamais, eu a sustentarei para todo o sempre), decidido a bradar como Prometeu:- Resisto! Meus amigos, traidores abjetos da masculinidade, já caíram na dança. Paciência. É nessas horas, q penso, amargo, q a gent sabe com quem pode contar. E enquanto eu rumino meu desgosto sobre a inconfiabilidade do gênero humano quem se aproxima de mim? – a própria aniversariante, a magrinha de aparelho nos dentes! E sem a menor cerimônia me convida a dançar.
Não vou, claro. Seria a última coisa que faria. Resmungo uma desculpa qualquer, ela ainda insiste, mas acaba desistindo, mesmo pq chegou a hora de apagar as velinhas. Aproveito p/ me refugiar num lugar mais seguro – o banheiro – e lá fico quasse até a hora da festa acabar.
E ai finalmente, posso voltar para casa. Meus amigos vão alegres, contando vantagens, mas não falo nada. Porque continuo inquieto, sentindo que o Destino ainda não desistiu de me aprontar alguma. Mais cedo ou mais tarde serei apanhado. E algo me diz que a menina magrinha tem algo a ver com issu...